Montreal (10)

MATAR, MORRER E AMAR.

Éramos uma confusão braços, pernas, pele e sons. Alguns inaudíveis, daqueles que na hora que a boca abre parece se esvair em qualquer outra coisa. Num arranhão por exemplo. Era uma salada de dois corpos que se queriam e tentavam à todo custo se saciar. Uma tarefa quase impossível em virtude do exposto: era uma batalha de prazer mútuo. Um queria fazer do outro vencedor, nós dois nos declarávamos vencidos pelo Amor.

E pelo tesão também.

Completava um dia e meio que não saíamos do quarto. A cesta que trouxera na véspera com frutas, pães e três garrafas de vinho tinha nos mantido até aquela hora.

Pra quem não está acostumado a essas loucuras feitas entre um casal apaixonado, poderíamos parecer dois animais em pleno cio. Para quem se cansa só de pensar em tanto sexo, poderíamos parecer dois atletas no auge de suas performances e dignos de medalha olímpica. Para quem entende que só um casal que se quer muito é capaz de cometer esses absurdos – e já viveu algo parecido com isso, éramos o exemplo perfeito de que a medida do Amor é amar desmedidamente.

Naquela suíte, naquela cama, naquele chão, naquela banheira, naquela cadeira, naquela coisa maluca de não saber de onde vem tanta libido. Um fogo perpétuo. Uma insanidade. Quando nos demos conta do tanto de tempo que já estávamos ali, começamos a rir.

Se alguém escutasse, certamente nos julgaria loucos. Mas já estávamos atormentando demais os vizinhos com a música e os gemidos. Éramos a certeza de que o hoje é preciso ser vivido plenamente.

Um dia e meio virando a o corpo e o coração de cabeça para baixo – e mais um monte de posições possíveis. Foi uma delícia, isso sim. A vontade que nascia do toque, morria na boca e renascia no olhar atrevido que um lançava pro outro. A poesia da dança, a prosa das frases clichês nos ouvidos e as surpresas repentinas dos gestos.

Éramos bem mais que duas pessoas apaixonadas, éramos dois loucos um pelo outro. Bêbados do vinho e suados do calor que emanava do outro. Eu poderia me deixar levar pra onde ela quisesse, contanto que pudesse levá-la junto. Na minha testa, certamente, deveria estar escrito “me usa”. Na dela um “me abusa” complementaria tudo.

E fazíamos o que mais queríamos ali: matávamos um ao outro de Amor e, por incrível que pareça, vivíamos ainda mais.

[ Gustavo Lacombe ]

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